Suzane G. Frutuoso

Ao apoiar mulheres empreendedoras há um desenvolvimento que impacta toda a sociedade. A certeza acompanha cada dia de trabalho – e vai no coração – de Leda Börger, diretora executiva do Instituto Consulado da Mulher, projeto social da empresa de eletrodomésticos Consul.

“As mulheres costumam investir a renda obtida em seus negócios na educação dos filhos e, assim, provocam transformações em cadeia. Com a força do trabalho, elas desenvolvem positivamente comunidades inteiras, todo o entorno de onde vivem”, diz.

Aos 50 anos, a administradora de empresas, com pós-graduação em gestão de recursos humanos, até se inspira pelas trajetórias de empreendedorismo feminino que acompanha. “Pretendo no futuro iniciar um empreendimento social, direcionado a moradores de rua”.

Catarinense, trabalhava como especialista em Inovação na Whirlpool Latin America, maior conglomerado de eletrodomésticos do mundo, ao qual pertence a brasileira Consul, quando recebeu o convite para dirigir o projeto. “O objetivo é qualificar mulheres que já têm pequenos negócios, fazendo com que elas se sintam confiantes, capazes de empreender, gerar renda e adquirir autonomia financeira”, diz Leda, casada e mãe de dois jovens de 21 e 23 anos.

E os números impressionam. Em 2017, o Consulado da Mulher beneficiou direta e indiretamente 4.483 pessoas e 245 empreendimentos, totalizando um faturamento de R$ 5,7 milhões. Está presente em 21 estados e tem atuação direta em Rio Claro (SP), Joinville (SC), Manaus (AM) e São Paulo (SP), cidades onde estão localizadas as unidades fabris e administrativas da Whirlpool Latin America e da Consul.

“As iniciativas apoiadas registram um aumento médio de 60% na renda das empreendedoras assessoradas. Nos 16 anos de atuação do Consulado da Mulher, mais de R$ 112 milhões em faturamento foram gerados pelos empreendimentos”, destaca Leda. Neste período, mais de 34 mil pessoas foram beneficiadas diretamente pela iniciativa.

Para participar de todo o processo de mentorias e preparação para o fortalecimento de um negócio do Consulado, mulheres que empreendem na área de alimentação em todo Brasil podem se inscrever de forma gratuita no edital, que tem inscrições abertas no início de cada ano.

“Por meio do Prêmio Consulado da Mulher de Empreendedorismo Feminino, alcançamos e beneficiamos empreendedoras de regiões muito remotas, lugares onde o empreendedorismo é, muitas vezes, a única saída. A premiação deste ano acontecerá em setembro. Já é a sexta edição”, ressalta a diretora.

Em 2018, além dos dez empreendimentos liderados por mulheres no segmento, uma empreendedora de impacto social, com soluções para resolver problemas socioambientais, também será escolhida. As vencedoras são definidas a partir de visitas técnicas e avaliação de um comitê multidisciplinar. Os projetos finalistas recebem eletrodomésticos Consul, recurso financeiro para investir no negócio e assessoria por um período de dois anos. A iniciativa tem o apoio da ONU Mulheres e está fundamentada em uma tecnologia social certificada pela Fundação Banco do Brasil e pela UNESCO por sua eficácia e potencial de replicabilidade.

Na entrevista a seguir, Leda conta mais quanto seu trabalho é especial e muda realidades femininas.

Quais são os impactos positivos na vida dessas mulheres e de suas famílias, tanto do ponto de vista emocional quanto financeiro?
O primeiro impacto que observamos é o sentimento de “pertencimento” que a mulher desenvolve quando se sente reconhecida como empreendedora, embora inicialmente ainda atue na informalidade. Com o desenvolvimento dos negócios e o acesso a conhecimentos sobre finanças, marketing e tantos outros, elas acabam por fortalecer a autoestima e são motivadas a levar seus sonhos adiante. Além das questões emocionais, a aquisição de novas habilidades nos negócios resulta no crescimento da renda, que permite acesso a uma melhor qualidade de vida tanto da mulher quanto de seus familiares.

Pode citar histórias que mostram quanto o instituto muda para melhor a vida das pessoas?
São centenas de mulheres que vemos literalmente desabrochar e se empoderar por meio do empreendedorismo. Gosto especialmente da história da Salsabil, nascida em Damasco, na Síria, e refugiada no Brasil há aproximadamente quatro anos. Ela é farmacêutica e na Síria era dona de uma farmácia. Com a guerra, que já dura quase oito anos, não conseguiu manter seu estabelecimento e teve que abandonar o país, deixando para trás todos os pertences. No Brasil, Salsabil encontrou na culinária uma forma de gerar renda. Buscou formação para empreender, está aprendendo nosso idioma, prepara todos os tipos de comida árabe, entre doces e salgados, e está construindo uma nova vida. Há também um grupo de mulheres indígenas, o SUMIMI, que fica no Amazonas, às margens do Rio Negro. É um empreendimento formado pela matriarca da tribo e também pelas mulheres jovens. Juntas, criaram um restaurante de comidas típicas e servem pratos que preservam a cultura da tribo.

Há também exemplos de mulheres que mudaram inclusive questões pessoais graças ao Consulado?
Sim. Algo que me marcou muito, logo no início do meu trabalho no Consulado, foi a história de uma mulher que quase não falava durante as atividades e dava sinais de isolamento e depressão. Com o passar dos meses, convivendo com o grupo de trabalho e outras empreendedoras, começou a ser mais participativa, contar suas dificuldades, buscar ajuda. Num determinado dia, fizemos uma dinâmica de grupo, perguntando a elas qual o maior ganho de seu empreendimento, do trabalho feito junto com o Consulado. E esta mulher deu seu depoimento: “Agora eu posso cantar e soltar a minha voz em casa, antes meu marido não me permitia cantar, dizia que minha voz era feia. Agora eu ganho o meu dinheiro, não dependo dele e canto a hora que eu quiser.” Isso foi muito forte pra mim. A dependência econômica faz com que a pessoa seja subjugada e se submeta a situações de violência física e moral. Com nosso trabalho, contribuímos para que toda mulher tenha autonomia financeira e seja dona de seu destino e de suas escolhas.

E como chegou o convite para dirigir esse projeto tão especial?
Minha trajetória profissional foi construída principalmente na área de Recursos Humanos e de Inovação. Comecei a desenvolver trabalhos voluntários no Consulado da Mulher e me apaixonei pela causa. Percebi que ali encontraria um propósito, um sentido maior para o trabalho. As experiências prévias que eu trouxe do segundo setor, trabalhando em grandes indústrias, foi um diferencial que agregou valor para a gestão do Consulado.

Apesar das oscilações políticas e econômicas, estamos num momento especial para o empreendedorismo no Brasil. Existem projetos, redes de apoio, cursos e muito mais informação sobre como começar um negócio, minimizando riscos de não dar certo. Também percebe esse cenário?
Concordo que temos avançado muito na oferta de informações e redes de apoio. No entanto, a maior parte dessa oferta ainda está direcionada para empreendimentos formais, de alta tecnologia – as famosas startups – e iniciativas que requerem investimentos relativamente altos. O principal diferencial da metodologia de trabalho desenvolvida pelo Consulado é a proximidade real com as pessoas que assessoramos. Nossa equipe acompanha o dia a dia das empreendedoras, compreende as dificuldades e limitações que são inerentes ao contexto de vulnerabilidade e trabalham junto para minimizar os obstáculos.

Qual a taxa de mortalidade dos negócios?
A taxa de mortalidade dos empreendimentos que assessoramos é inferior a 20% nos dois primeiros anos de assessoria. É um indicador muito positivo.

O que ainda precisa melhorar em geral?
Os investimentos na educação básica. Vemos muitas pessoas com ensino médio concluído e que não têm domínio de matemática básica ou capacidade de interpretação de um texto. Isso dificulta muito a assimilação de novos conhecimentos e o empreender propriamente dito. Outro fator que ainda carece de muita atenção e investimento é a desburocratização dos processos. Por mais que se tenha avançado nos últimos anos, ainda é relativamente complexo formalizar um empreendimento no Brasil.

E o que precisa melhorar especificamente no caso do empreendedorismo feminino? Quais são os desafios das mulheres para que seus negócios realmente avancem?
Acredito que o empreender e o lidar com as finanças são temas que deveriam ser ensinados desde cedo na escola, não só para as mulheres. Um dos principais desafios para a mulher que empreende é conseguir conciliar a maternidade, os afazeres domésticos e a dedicação ao seu empreendimento.

Acredita que ainda temos poucas lideranças femininas, inclusive para inspirar?
Temos muitos modelos, mulheres que são referência em diversas áreas, tanto nas ciências, quanto nos negócios. Precisamos divulgar e valorizar mais estas mulheres, dar visibilidade a essas lideranças para inspirar outras. Aliás, parabéns ao Mulheres Ágeis por estarem atentas e dedicadas a mostrar estes modelos inspiracionais.

Pessoalmente, o que estar à frente de um projeto como o Consulado da Mulher desperta em você?
Aprendi muito no Consulado da Mulher, especialmente a compreender as questões de gênero, a desenvolver um olhar mais atento e sensível para todas as formas de diversidade. Trabalhar aqui desperta o melhor de mim. Me sinto grata e privilegiada por ser remunerada para exercer uma atividade que melhora de verdade a vida de tantas pessoas.

Quando e por que decidiu deixar os cabelos lindamente brancos?
Adorei essa pergunta! Acho que estamos amadurecendo como sociedade, aceitando melhor as diferenças e quebrando estereótipos. Meu cabelos começaram a ficar brancos muito cedo, aos 25 anos. Mas aprendi que era feio a mulher ter cabelos brancos, pareceria desleixada e velha. Porém, ser escrava da tintura, “ter que” pintar os cabelos a cada 15 dias me incomodava muito, muito mesmo. Num determinado momento, decidi assumir minha cabeleira em sua cor natural, e por incrível que pareça, só tenho recebido elogios. Gosto de olhar no espelho e me perceber, me aceitar do jeito exato que sou. Com meus cabelos brancos, minhas rugas e todas as marcas do tempo que contam um pouco da minha história.

Três livros que Leda recomenda:
Alimentação Desintoxicante, de Conceição Trucom
Desculpability, de João Cordeiro
Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés

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