Suzane G. Frutuoso

Quando mal existiam estatísticas sobre câncer de mama no país e metástase pela doença era diagnosticada como câncer nos ossos, a enfermeira Gilze Maria da Costa Francisco já insistia na importância da orientação sobre o autoexame para mulheres em um hospital na Praia Grande, litoral de São Paulo, onde era chefe da enfermagem. Teve quem achasse que reforçar o apalpar da mama todo mês fosse bobagem. Não era. Gilze sabia. E acabou, por um mês de gripe forte que a levou a esquecer a rotina de sentir seus seios, sendo “pega” pela patologia que ensinava a combater.

Eram os anos 80. Ainda havia muito para ser descoberto na luta contra o câncer. “Eu me orgulhava das minhas mamas bonitas: densas, firmes. Ali, achei meu nódulo, depois de dias com uma sensação ruim, tendo pesadelo. Até mandei meu marido ao check-up.”

Ironia do destino, muitos devem dizer. Na verdade, o começo de um novo traçado no destino de Gilze. Dezoito anos depois de ser diagnosticada com câncer de mama, seu trabalho se tornou referência em atendimento multidisciplinar de mulheres que enfrentam a doença. Ela fundou o Instituto Neomama, em Santos, sua cidade, após ser a primeira mulher do país a falar abertamente e publicamente, do ponto de vista da paciente, sobre tão delicado momento.

“Senti o nódulo quando me olhava no espelho do banheiro. Um domingo à noite. Ouvi a música da abertura do Fantástico tocando. Saí do banheiro e falei para minha mãe e meu marido que estaria no médico no dia seguinte”, lembra Gilze, enquanto conversamos numa tarde de quarta-feira em uma sala de reunião do instituto e ao lado de um espaço com dezenas de perucas.

“Esse foi o primeiro banco de empréstimos de perucas do Brasil. Perder os cabelos mexe muito com a autoestima de boa parte das mulheres. Temos aqui perucas de todos os modelos, além de lenços”, explica. Outro banco do Neomama é o de sutiãs com enchimentos. Os tamanhos são variados, assim como os materiais. São para mulheres com mastectomia. “Não só pela questão da autoestima. Mas porque ficar sem o peso de uma mama causa problemas de postura e de equilíbrio.”

Foi Gilze também quem batalhou a vinda do Outubro Rosa para o Brasil, em 2008. O movimento teve início nos Estados Unidos, na década de 90, quando o laço cor-de-rosa foi lançado pela Fundação Susan G. Komen for the Cure e distribuído aos participantes da primeira Corrida pela Cura, em Nova York.

Solidão
Mais de 3 mil mulheres já passaram pelo Neomama. São cerca de 200 pacientes assistidas a cada mês com atividades como fisioterapia, dança, remo no mar (considerado um dos melhores esportes para quem teve câncer de mama), oficinas de artesanato, além de orientações nutricionais, jurídicas e psicológicas. “Hoje, tenho 25 voluntárias maravilhosas, dedicadas, mas comecei sozinha, com a certeza de que seria um trabalho pioneiro de atendimento fora do ambiente hospitalar.”

Gilze não desejava que mais nenhuma mulher sentisse a solidão que ela experimentou. Havia pouca informação quando soube do câncer que carregava aos 38 anos. “O mastologista que me atendeu no dia seguinte à descoberta do nódulo dizia que eu era muito jovem e que só pediria a mamografia por desencargo de consciência.”

O que o médico não imaginava, mas Gilze pressentia, era que a doença avançara. “Fiz mastectomia. Câncer agressivo, com dois nódulos e pontos já no peitoral e na axila.” Para aplacar o medo do que estava por vir, Gilze buscou respostas na internet, época em que o ciberespaço ainda se construía e o Google era uma startup de primeiros passos.

“Não gostava das informações e dos sites que encontrava. Tudo muito difícil de compreender, de médicos e indústria farmacêutica, e ninguém explicando a vivência do enfrentamento do câncer em si”, diz Gilze. Decidida a fazer um blog, pediu ajuda à irmã e registrou o domínio cancerdemama.com.br. Nascia, então, em 14 de março de 2000 um diário virtual de Gilze, um mês após sua última sessão de quimioterapia. Foi um boom, e o site chegou a ser um dos mais lidos do mundo sobre o tema em português.

Um ano se passou. E a jornada deu a Gilze outro domingo marcante, dessa vez no programa do apresentador Fausto Silva, o Faustão, na Rede Globo. “Fui chamada para falar do blog. Nos dois dias seguintes, recebi mais de 40 mil e-mails de todo o país. Entendi o valor daquele momento. Era junho de 2001. Abri o instituto em novembro.”

Conhecimento
O Instituto Neomama vive de doações e da completa dedicação de Gilze, que hoje, aos 56 anos, também comanda em uma TV local o programa de saúde e bem-estar Um Toque Pela Vida. Ela é uma fonte inesgotável de conhecimento sobre o câncer de mama.

“Fiz cursos, participei de congressos, seminários. Inclusive um de advocacy no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.” Advocacy é um processo de influência de tomadores de decisão por meio de conscientização e engajamento de outros. É também atual presidente da Rede Feminina de Combate ao Câncer do Estado de São Paulo.

Entre os dados que faz questão de destacar, de acordo com os levantamentos do Neomama:
-> 10% a 15% dos casos de câncer de mama são genéticos; 85% são fatores externos, como consumo de álcool, situações de estresse, menarca precoce, menopausa tardia, não ter filhos;
-> atinge mulheres cada vez mais jovens, com um intervalo de dez anos entre gerações. Por exemplo, avó que teve a doença aos 68 anos, mãe aos 58, neta aos 48 e bisneta aos 38 anos;
-> grande parte dos casos são de mulheres da classe média, mais preocupadas em desempenhar diversos papéis na sociedade e com grande pressão por atingir a perfeição em cada um deles;
-> 45% das atendidas no instituto são evangélicas, mulheres que têm mais pudor com o próprio corpo, com o tocar a si mesmas.

Casada com José Luiz, coordenador de projetos do Neomama e analista de sistemas, mãe de Mariana, 30 anos, e avó de duas crianças, Gilze não para. De trabalhar e ter ideias. Todo ano, algumas das atendidas são convidadas a participar de um calendário. Cada uma representa um mês. Lindas. Com flores coloridas em frente ao busto como símbolo de um renascimento. “Publicamos o primeiro em 2011. Virou sucesso. Conheci o conceito de um calendário da Inglaterra feito por voluntárias que desejavam arrecadar fundos para um hospital.”

São muitas as conquistas. Mas Gilze também chora, geralmente dentro do carro, quando se vê sozinha, abraçada ao volante. “Claro, as perdas existem”, diz ela, emocionada. “Levo comida, visito no hospital, fico junto quando se sentem sozinhas. Não é só administrar o instituto.” Há, ainda, um lado de conselheira, que senta para conversar com maridos, filhos e quem mais quiser compreender as emoções de uma mulher com câncer de mama. “Falo até de sexualidade.”

Gilze nem desconfiava que chegaria onde chegou. Que transformaria o pesadelo em sonho. “Fiz a clássica pergunta: por que eu? E me dei conta de que a única coisa a fazer era não aceitar a situação com passividade.” Ela permanece insistindo no poder do autoexame. Mas é sincera: nada é prevenção de fato. “Vivemos tempos de dúvidas, ansiedades, que geram doenças. Então, esteja presente e seja feliz. É o melhor remédio.”

Para saber mais:
www.neomama.org.br
www.cancerdemama.com.br

4 Comentários

  1. Vanda Lúcia Agostinho Xavier

    Essa mulher é exemplo para milhares !
    Mas quero deixar aqui meus agradecimentos pelo afeto dedicação carinho e luta pelo empenho para o bem estar de todas as assistidas, ela ensina nos à termos auto estima valores meios que perdidos entre diagnóstico e tratamentos,com sua coragem e determinação trazendo para nós todos os profissionais que cuidam do nosso corpo é mente!

    Obrigada Gilze Francisco!!!!!!

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