Renata Leal

No banco de trás de um táxi, a caminho de um encontro com amigas, ela começou a ouvir os gracejos inconvenientes do motorista: “nossa, você está arrumada, é muito bonita”. Depois, vieram as mudanças no caminho, que ficou muito mais longo que o necessário. O pânico foi aumentando até a chegada ao destino, em um bar, quando o taxista falou mais bobagens para Gabryella Correa. “Fiquei muito nervosa e contei para as minhas amigas. Logo comecei a pesquisar e vi que não existia um aplicativo de transporte apenas para mulheres”, diz Gabryella. Não há números oficiais sobre a ocorrência de casos de violência contra as mulheres no transporte público ou privado, mas há inúmeros relatos, que vão de assédios verbais a estupros. A partir de sua terrível experiência no táxi, Gabryella enxergou a oportunidade de criar a Lady Driver, um app que só aceita mulheres como motoristas e passageiras.

“Primeiro conversei com a minha irmã. Não falei logo de cara com o meu marido. Esperei a ideia amadurecer”, afirma – hoje o marido dá bastante apoio ao negócio e eles dividem tarefas em casa, especialmete porque Gabryella tem trabalhado em longas jornadas. CEO da empresa, Gabryella se juntou à irmã Raquel Correa, e à cunhada, Bianca Saad, para levantar a startup. Após um período de validação de seis meses, a Lady Driver entrou oficialmente no ar em 8 de março de 2017, com 1800 motoristas cadastradas. De lá para cá, o app já teve mais de 150 mil downloads e aumentou sua base para 12 mil motoristas nas cidades de São Paulo e Guarulhos.

O principal objetivo da empresa para 2018 é crescer com solidez e expandir também para o Rio de Janeiro. Para ganhar ainda mais escala, os esforços estão concentrados em marketing, tanto para continuar atraindo motoristas quanto para chegar a mais passageiras. “Nós encorajamos as mulheres ao volante. Elas se sentem incluídas e mais seguras.”

Segundo Gabryella, o surgimento da Lady Driver estimulou muitas mulheres que precisavam de uma forma alternativa de ganhar dinheiro, mas tinham medo de dirigir para outros serviços de transporte. “As mulheres ainda têm muitas funções diferentes dos homens e um compromisso maior com a família. Por isso, decidimos cobrar uma participação menor nas corridas”, diz. A Lady Driver fica com 16% do valor total pago pelas passageiras. “Assim, a mulher consegue trabalhar menos e ganhar mais.”

Empreendedorismo no sangue
Gabryella é uma jovem empreendedora de 35 anos. Mas o mundo dos negócios não surgiu em sua vida com a Lady Driver. Dos 15 aos 28, trabalhou com o pai na oficina mecânica da família, como a responsável pela área administrativa. “Mas quando meu pai decidiu se aposentar, concluímos que ficaria muito difícil para eu levar a oficina sozinha, pois não tinha a bagagem técnica necessária”, diz. Gabryella respeitou a decisão dele e fecharam a empresa. Surgiu, então, outra oportunidade de negócio e ela abriu uma empreiteira, que chegou a ter um time de 78 funcionários durante o boom imobiliário. Mas veio a crise no setor, que levou ao fechamento das portas. Sua autoestima foi lá para baixo.

Depois de vários anos empreendendo, Gabryella decidiu partir para o mercado de trabalho. Seu marido foi transferido de São Paulo para o Rio de Janeiro e ela decidiu que era hora de procurar um emprego. “Foi preciso ter muita resiliência para recomeçar, muita força interna.” Nutricionista de formação, conseguiu trabalho em uma grande construtora e foi comandar a cozinha do canteiro de obras da Vila dos Atletas, área que serviu de base para receber os esportistas que vieram à Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016. Durante três anos, otimizou a equipe, cortou custos e aumentou a rentabilidade de sua área. “A cozinha é uma empresa que precisa dar certo todos os dias”, afirma. Gabryella comandava uma equipe de 230 funcionários, que produziam 12 mil refeições diárias. Só de carne, eram duas toneladas todos os dias. O lado intraempreendedor de Gabryella marcou presença e ela voltou a estudar. Fez outra graduação, dessa vez em Gestão Financeira na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Ao fim da obra, o canteiro foi desfeito e toda a equipe que trabalhava foi dispensada.

Mulheres apoiam mulheres
A Lady Driver atua em dois setores com grande presença masculina: transportes e tecnologia. “Mas eu nunca me intimidei por isso”, diz Gabryella. Para ela, essa é uma prova de que as mulheres podem ser o que quiserem e o principal é não ter medo. Ela reconhece que o aplicativo de transportes com motoristas e passageiras contribui para o empoderamento feminino e para a independência das mulheres. “Precisamos nos unir para fomentar mais negócios entre as mulheres e mostrar que todas podemos.” A Lady Driver realiza uma série de treinamentos com as motoristas. “A equipe acaba sendo bem mãezona, porque as mulheres abrem o coração. Acredito que o empoderamento precisa ser algo natural e não forçado. As próprias mulheres acabam percebendo que são capazes de fazer mais. Esse é o empoderamento.”

Ela enfrenta o machismo com uma atitude paciente. Afirma que continua sofrendo, mas prefere deixar de lado e seguir com seus objetivos. Ouviu tanto de homens quanto de mulheres que seu negócio não daria certo – algo recorrente no mundo empreendedor. Alguns investidores duvidaram que ela conseguisse ter um bom número de mulheres motoristas. “Estamos conseguindo mostrar para elas que dirigir é para elas também. O impacto que queremos causar é ter mais mulheres ao volante”, diz.

Para saber mais:
https://ladydriver.com.br/

Livros que Gabryella recomenda:
– Startup Enxuta, de Eric Ries
– Estilo Madonna, de Carol Clerk – “Madonna é ousada e mostra que não podemos nos intimidar”
– “um livro de espiritualidade que faça sentido para a sua vida” – Gabryella busca na religião um apoio importante para sua vida e recomenda que outras pessoas façam o mesmo, de acordo com suas próprias crenças.

Um Comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *