Suzane G. Frutuoso

Dificilmente você encontrará Ana Fontes sossegada, sem um compromisso marcado na agenda após o outro. Dificilmente, por mais ocupada que esteja, ela não vai parar um minutinho para um abraço, uma palavra de apoio ou indicar um caminho pra gente segurar firme os desafios do universo do empreendedorismo feminino e seguir em frente.

Ana é hoje a maior autoridade no assunto no Brasil, um símbolo, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), que já impactou cerca de 300 mil mulheres desde sua criação, em 2010. Foi ela quem antes da maioria compreendeu que fomentar negócios tocados por mulheres, muitas mães de família, permitiria a elas a transformação de suas vidas. “Empoderar empreendedoras é garantir a elas independência financeira e proporcionar capacidade de escolha”, diz Ana na sede da RME, em São Paulo.

A ideia da rede surgiu quando participava do Programa 10 Mil Mulheres, promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pelo Goldman Sachs Foundation, de educação em administração e gestão de negócios para mulheres empreendedoras. Junto com Alice Salvo Sosnowski, outra pioneira do pensamento empreendedor no Brasil e criadora da metodologia O Pulo do Gato Empreendedor, elas desenharam o que viria a se tornar a primeira rede brasileira de trocas, informações e experiências para mulheres que desejavam começar ou fazer crescer um negócio.

Antes de ser essa referência para toda brasileira que pretende empreender, a ponto de se tornar representante do país no Women20 Summit (W20), grupo de mulheres do G20 que se reuniu em conferência global em abril de 2017, Ana enfrentou situações difíceis no mundo corporativo. Cenas que, infelizmente, ainda acontecem. Mas há 20 anos eram comportamentos “normalizados” e jamais questionados. O chamado “coisa de homem” ou considerado comum na carreira executiva.

Alagoana de Igreja Nova, distante 150 quilômetros de Maceió, Ana Lúcia migrou aos 4 anos com a família, fugindo da seca, para Diadema, na Grande São Paulo, em 1970. O pai veio na frente com dois irmãos mais velhos, de nove irmãos, para arrumar emprego. A mãe depois, com os filhos menores. “No Nordeste, a gente aprende a empreender desde cedo para se manter vivo”, diz. Com 11 anos já era doméstica e babá. Aos 14, começou como balconista em uma loja. Dos 15 aos 19, trabalhou em uma fábrica de brinquedos – foi de recepcionista a auxiliar de vendas.

Nunca esquecia que os pais, semianalfabetos, repetiam sempre “vocês têm que estudar.” A faculdade de comunicação na Universidade Anhembi Morumbi veio aos 21 anos. “Com a matrícula paga por uma vizinha”, lembra Ana, com gratidão. “Tentei pagar de volta, ela não quis o dinheiro. Com meu salário, ajudava em casa. Terminei o curso ainda devendo porque juntava dinheiro dois meses para pagar uma mensalidade e assim por diante.” Como o curso era de manhã, Ana preparava bolos e tortas para vender à tarde.

Até que conseguiu um estágio em propaganda e promoção no banco Autolatina, uma joint venture entre Ford e Volkswagen que durou dez anos entre as décadas de 1980 e 1990. Ao terminar a faculdade, foi contratada como terceirizada pela empresa de pesquisas da própria holding. Chegou a coordenadora de área, mas não conseguia crescer. Para avançar, foi atrás de uma pós-graduação em marketing na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

“No final dos anos 90, Ford e Volks se separaram. Eu me tornei gerente de atendimento de uma agência de promoção e eventos, uma experiência que eu desejava. A Volks, porém, me chamou de volta, dessa vez com bom salário, benefícios, para coordenar a área de promoções.” Ana ainda sentia que podia avançar mais como executiva. Sabia que o inglês era um gap na sua formação. Pediu uma licença não remunerada de três meses para estudar em Londres. Não só conseguiu o tempo para o intercâmbio, como um estágio três vezes por semana na Volkswagen inglesa. “Trabalhei muito e, finalmente, cheguei à supervisora. Fiz mais uma pós, em relações internacionais, na USP.”

Duros aprendizados
A carreira corporativa era um sonho. Trouxe, no entanto, um estresse grande demais. Em 2001, Ana teve uma gravidez de risco, aos 35 anos, e a filha morreu no parto. Três meses depois, estava grávida novamente. Outra gravidez de risco. Quando entrava o nono mês de gestação, surgiu uma nova vaga de gestora em marketing e vendas na empresa – e ela era a única que entendia bem o assunto. Ganhou o cargo e se tornou a única mulher entre 60 executivos de alto escalão.

A segunda filha, Daniela, nasceu saudável. Ao mesmo tempo, a área que assumiria logo após a licença-maternidade passou por problemas. E Ana retornou ao trabalho com dois meses e meio de licença. “Perdi uma parte importante do período da maternidade. Hoje, não tomaria essa decisão”, afirma.

Quando a segunda filha chegou em sua vida após aguardar na fila da adoção, Ana estava em outra empresa há três meses. Todos os colegas comemoraram com ela no dia que anunciou a todos, emocionada, que a aprovação saíra e Evelyn estava finalmente chegando à sua família. “Na parte da tarde, o clima mudou, as pessoas pararam de falar comigo. Uma moça do jurídico me chamou para tomar um café fora da empresa. Ela me avisou, então, que os chefes não ficaram contentes com a adoção porque, pela lei, eu teria direito à licença-maternidade. Não tive dúvida. Fiz um acordo para sair de licença e ser demitida após o período.”

Ana faz questão de dizer que é extremamente grata às empresas pelas quais passou. Mas com esses desafios pessoais começou a entender que as mulheres mereciam cenários mais justos para se desenvolverem profissionalmente. “Tive bônus menores pelo mesmo ou melhor trabalho. Um recrutador chegou a dizer que meu currículo era perfeito para a vaga que ele tinha, mas eu era mulher e ele precisava de alguém que gritasse e batesse na mesa.”

Empreender
O primeiro passo como empreendedora foi o site Elogieaki, que fundou com dois amigos e foca no reconhecimento às melhores práticas no mercado. Graças ao Elogieaki foi aceita para o Programa 10 Mil Mulheres. Depois veio um coworking e, finalmente, a RME. Essa última nasceu em 2010, online, a partir do 10 Mil Mulheres. “Foi ali que entendi a grande demanda feminina para empreender e como unir esforços, gerar trocas, traria força a esse movimento. As mulheres não podiam mais se sentir sozinhas.”

A sociedade terminou e Ana comprou a parte dos sócios no coworking e na rede. Acabou se desfazendo do coworking dois anos depois para se dedicar totalmente à RME, em 2014. “Era meu propósito. Eu me sentia feliz com a rede. Já havia a Virada Empreendedora, criada em 2011, que são dois dias de palestras e workshops sobre empreendedorismo”, afirma. “E também me dedicava à consultoria de diversidade e temáticas femininas para empresas.”

O marido, o físico Luciano, se tornou sócio de Ana na rede. Ele trabalha de casa e gerencia o cotidiano do lar e das filhas. “Isso ainda não é comum nas famílias brasileiras. Ainda somos mais sobrecarregadas, ganhamos menos para bancar uma rede de apoio”, destaca. “E não adianta querer dar conta de tudo sozinha, de cada papel com perfeição. A gente adoece se fizer tudo.”

No dia da nossa conversa, Ana comemorava a então recente criação do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), focado em políticas públicas para mulheres em situação de vulnerabilidade e ações que fomentem o empreendedorismo feminino e o empoderamento econômico para independência financeira.

“A mulher empreende pensando na sociedade, na colaboração. Em investir na sua comunidade para que exista desenvolvimento para todos. Busca uma realidade melhor para ela e também para aqueles que a cercam. Temos outra linguagem para construir nossos negócios. Vamos dominar o mundo. Mas, principalmente, vamos melhorá-lo.”

Para saber mais:
www.redemulherempreededora.com.br
www.viradaempreendedora.com.br

Pesquisa:
Empreendedoras e seus negócios – https://goo.gl/H6m2tC

Livro:
Empreendedoras por Natureza, de Ana Fontes e Rosely Cruz

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