Suzane G. Frutuoso

A ideia de rivalidade entre mulheres sempre incomodou a psicóloga Regina Truffa, assim como as chamadas relações duradouras da época de nossas avós e até mesmo nossas mães. “Acredito em relacionamentos longos e felizes. Mas também sabemos que muitas mulheres eram infelizes e mantinham casamentos porque à mulher não era permitido fazer escolhas”, diz a especialista, que será a facilitadora do encontro MAG Café: quem é a mulher que nos tornamos e o que falta equilibrar, roda de conversa de Mulheres Ágeis que ocorre na manhã de 9 de junho, em São Paulo (inscrições https://goo.gl/Uw5Spc).

Paulistana de 41 anos, que voltou há 18 anos para a capital depois de ser criada em Auriflama, Regina sempre quis ser psicóloga e ajudar as pessoas a encontrarem melhores caminhos, apesar dos conflitos. Especializada em teoria analítica junguiana e teorias sistêmicas, seu público é formado por casais, famílias e mulheres. “Trabalho para que o paciente perceba como a vida dele é tocada também pelas histórias que escuta e o influenciam das mais diversas maneiras.”

Regina, que também atende no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPq-HCSP), deseja montar, ainda em 2018, um grupo de mulheres com temas sugeridos por elas mesmas, um outro grupo para trabalhar a questão da codependência, levar seu workshop “Tornar-se Mulher” para outras cidades, além de criar um canal no YouTube.

Casais, famílias e mulheres. Por que esses públicos?
Trabalhar com casais e família é um grande desafio. Em geral, quando as pessoas me procuram com um sintoma que as incomodam, existe um paciente identificado como sendo “o problemático”. A tarefa é distribuir o sintoma, entender como cada indivíduo se coloca na relação. Isso me fascina. É um exercício complexo, mas prazeroso e que também me coloca diariamente com minhas próprias questões pessoais. Quanto ao público feminino, me encantei desde a época da faculdade quando, no estágio, criei grupos em bairros de periferia com mulheres e também trabalhei no Centro de Doenças Infectocontagiosas de Piracicaba, no qual recebíamos pacientes soropositivas.

Como foi esse primeiro contato profissional especificamente com mulheres?
Fui percebendo o quanto as mulheres não tinham voz e o quanto se colocavam umas contra as outras em vez de procurarem se ajudar em diferentes situações. A ideia de rivalidade era muito presente. Bati de casa em casa para chamá-las. Um assistente social chegou a dizer que elas não iriam em troca de algo como leite. Foram e durou um ano. Além do atendimento terapêutico, também abordei a importância dos cuidados pessoais e da proteção no sexo, com o uso da camisinha.

Enfim, houve acolhimento entre elas?
Sim, mas não permitiram, por exemplo, a participação de uma prostituta soropositiva. Era um preconceito, ainda um tipo de rivalidade. Comecei a ir na casa dessa moça para atendê-la sozinha, o que acabou levando também ao atendimento do grupo de mulheres com HIV. Muitas dessas soropositivas só tinham relações sexuais com os maridos. Algumas descobriram quando já eram viúvas.

Você criou o workshop Tornar-se Mulher. O que a despertou para essa ideia?
A vontade de contribuir para o resgate de características essenciais da mulher e despertar reflexões sobre a alegria em ser mulher, o que muitas veem como um fardo. Por exemplo, ideias como “vida de homem é mais fácil” e “na próxima encarnação quero nascer homem” eram falas muito comuns quando atendia mulheres nas periferias. O objetivo é ressignificar o espaço pessoal das mulheres e estimular a empatia e o companheirismo entre elas.

Quais diria que são as dores e buscas da mulher brasileira de hoje?
A mulher que chega hoje ao consultório está sobrecarregada, acumulou muitos papéis e sente culpa quando faz muito e quando faz pouco. Sente que sempre está em falta, ou consigo mesmo (cuidados pessoais, diversão…) ou com o outro. Ela ainda busca um parceiro, mas este não é o objetivo maior. Ela precisa se realizar em outros campos. Não apenas no afetivo. Hoje a gravidez tardia é um tema recorrente, inclusive.

Elas trazem em suas falas o contato ou conhecimento com movimentos feministas e/ou que falam do feminino?
Percebo que algumas ainda têm uma visão distorcida do feminismo. São as mais novas que trazem esse tema. Mas as mulheres querem trocas construtivas, que fazem parte do feminismo. Eu as ajudo a perceber o quanto a percepção de mundo e de si mesmas pode contribuir para que fiquem em relacionamentos abusivos, tantos profissionais quanto afetivos.

A mulher machista aparece? Quais são suas características?
Aparece! É aquela que fica feliz quando o marido “ajuda”, que não consegue dividir as responsabilidades. Que está doente e sobrecarregada, mas não reclama. Acredita que tem que dar conta, que está dependente do marido financeiramente e não percebe o quanto isso a priva. Que não se sente à vontade de falar com o marido sobre o quanto está infeliz sexualmente. Quando traída, coloca a culpa ou em si ou na “outra”. Enfim, que alimenta o machismo ao não se perceber como machista.

Sua paciente sabe o que é e pratica a sororidade?
Algumas sim, outras não. É um termo muito novo para elas. Eu trago para o consultório e divulgo em minhas palestras. Elas já estão mais “em casa” com o termo empoderamento, mas ainda estão aprendendo muita coisa.

E para você, como mulher e psicóloga, de que maneira o contato com esses movimentos afeta sua vida pessoal e profissional?
Afeta bastante. Se construirmos relações com outras mulheres de contribuição mútua todas ganharemos. A vida está pesada para as mulheres, pois estamos em transição do que éramos para o que queremos ser. Sentir-se empoderada é fundamental para avançarmos e nos realizarmos. E juntas fica muito mais leve.

Falando também de casais e famílias, qual é a busca?
Quando chegam estão em guerra pela busca de culpados. Contribuo para que comecem a se ouvir. As queixas são diversas: distanciamento afetivo, traições, angústias relativas a relacionamentos abertos, a se sentirem desvalorizados, conflitos na educação dos filhos… Chegam esgotados. O trabalho é para que possam viver um casamento criativo com uma relação mais nutritiva e fértil. Na grande maioria dos casais que recebo ainda é a mulher quem busca a terapia de casal.

Transtornos como ansiedade e depressão são despertados justamente por pressões sociais e violências. Você percebe essa relação no seu consultório?
Sim, e vejo que o homem criado para não demonstrar sentimentos carrega muito ainda a ideia de “homem não chora”, mesmo que velada no arcabouço psicológico. Entendo, inclusive, que este seja um dos fatores bem importantes para o fato das mulheres trazerem com maior frequência transtornos emocionais: serem vítimas do homem que também não está bem, mas aprendeu que assim era o certo. Recebo no consultório homens depressivos, com pânico, mas que estão começando a se sentirem mais livres para falar. Já em relação ao adoecimento das mulheres, ainda vejo como causa principal a sobrecarga, a culpa e a dificuldade de buscar parcerias saudáveis.

Do ponto de vista emocional e dentro da sua observação de tantos anos de prática clínica, estamos evoluindo como seres humanos ou andando para trás?
Estamos evoluindo. Podemos dizer o que sentimos e também tomar atitudes que antes eram condenadas. Uma mulher separada, por exemplo, perdia o valor para a sociedade. Hoje, uma mulher que se separa de um casamento em que não se sentia bem é vista com outros olhos. Ainda existe julgamento, mas também quem a veja como ousada, corajosa e decidida. Vejo como um sinal de que estamos caminhando para frente. Lógico, tem muita coisa fluida e superficial nos relacionamentos de hoje, muita coisa descartável. Me lembro do fogão da minha tia. Desde que eu nasci era o mesmo fogão, durava. Agora, chega uma hora que é preciso trocar. Quer dizer que antes era melhor que hoje? Posso pensar que durava mais, mas não necessariamente era melhor, afinal não era autolimpante (risos). Eu questiono os relacionamentos duradouros como das minhas avós, tias… Não é porque durou que necessariamente foram felizes. Talvez os relacionamentos mais superficiais sejam uma forma de experimentação para a escolha do parceiro e não somente um descartar do outro. Mas também ainda acredito nos relacionamentos duradouros e felizes.

Livros que Regina recomenda:

A mulher e seus segredos: desvendando a alma feminina, de Luiz Cuschnir

Gritos e Sussurros: interseções e ressonâncias – trabalhando com casais, de Sandra Fedullo Colombo

A prostituta sagrada: a face eterna do feminino, de Nancy Challs

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