Suzane G. Frutuoso

O Brasil ocupa um vergonhoso e pouco divulgado quarto lugar no ranking global de meninas submetidas a casamentos infantis. Os impactos são devastadores e para a vida toda. Desde o abandono da escola, o que futuramente compromete chances de trabalho e melhoria de renda, até a exposição precoce a diferentes tipos de violência como sexual, física e emocional. Uma maneira de reverter esse quadro é investir na conscientização das meninas sobre seus direitos e que não, elas não são obrigadas a aceitar desigualdades – que começam em casa e se refletem no futuro ambiente profissional.

A PLAN International é uma organização não-governamental, presente em mais de 70 países, que luta para que meninas e jovens mulheres se empoderem. Por aqui, a atual diretora, a pedagoga e ex-executiva paulistana Cynthia Betti, 47 anos, assumiu o comando da instituição no começo do ano com uma missão especial: transformar a vida de 10 milhões de brasileirinhas em cinco anos, despertando nelas toda capacidade de liderança que carregam.

Casada há 25 anos com Carlos, o companheiro que sempre a incentivou a exercer outros papéis além da maternidade; mãe de Isabella, de 22 anos, e Giovanna, de 21 anos; Cynthia é formada em pedagogia pela USP, com MBA em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), especialização em gestão avançada da Fundação Dom Cabral/INSEAD e especialização no curso Advanced Management Program, da Universidad de Navarra. Ela concedeu a entrevista a seguir a Mulheres Ágeis.

Quem foi a menina Cynthia?
Uma menina de classe média baixa, caçula, com dois irmãos mais velhos. Meus pais eram muito simples, descendentes de italianos e espanhóis, ambos formados em cursos técnicos, não cursaram faculdade. Estudei a vida toda em colégio público e era muito dedicada aos estudos, sendo muito incentivada por meus pais, especialmente minha mãe. Sempre admirei sua força. Ela vinha de uma família matriarcal italiana. A avó e a própria mãe enviuvaram precocemente, o que fez com que o sustento de seus filhos ficasse sob responsabilidade delas. Eu comecei a trabalhar aos 16 anos como professora de inglês e decidi cursar pedagogia por acreditar na capacidade da educação em transformar a vida das pessoas.

Como foi sua trajetória profissional antes da PLAN?
Entrei no mundo corporativo no final dos anos 1980 e permaneci por quase 30 anos, até março deste ano. Comecei como secretária, até que surgiu uma oportunidade na área de treinamento de recursos humanos. Me especializei em desenvolvimento organizacional e acabei também me envolvendo em outras áreas como planejamento estratégico.

Você alcançou um alto cargo de liderança na última empresa em que trabalhou. Quais foram os desafios?
Sim, cheguei a diretora estatutária, a única mulher entre todos os demais executivos. A mulher ainda tem que conquistar seu espaço no ambiente corporativo, muito limitado e solitário para nós. Requer uma dedicação muitas vezes superior aos seus pares, o que pode trazer um desequilíbrio que impacta a vida pessoal. Tive vários gestores que me apoiavam, mas outros tantos que me tratavam com menos respeito e não aceitavam me incluir no “clube”, pelo simples fato de eu ser mulher. Se cheguei até onde cheguei foi porque aprendi com as dificuldades e me fortaleci com as quedas. Principalmente, porque tenho um marido que exerceu, e ainda exerce, sua paternidade da forma mais ampla, para que eu também pudesse exercer outros papéis, além do de mãe.

De que maneira conheceu a PLAN e como aconteceu o convite para estar à frente da organização?
Fui procurada por um headhunter que compartilhou comigo a oportunidade. Construímos juntos esta ponte, que foi minha grande transição profissional. Fiz um trabalho com uma coach de carreira há alguns anos e havia colocado que, quando eu me aposentasse, me dedicaria a um projeto social. O headhunter me fez perceber que eu não precisava esperar, que poderia começar esse projeto de vida agora. E aqui estou.

Antes da PLAN, você acompanhava a questão do empoderamento feminino e os movimentos pelos direitos de mulheres e meninas que surgiram pelo Brasil e pelo mundo?
Sim, já estava envolvida no tema, por ser parte totalmente envolvida e pelo desejo de abrir caminho para tantas mulheres capazes e que ainda não conquistaram seus espaços.

O que a fez decidir ir para a PLAN?
A vontade de mergulhar em uma causa, que eu já havia tocado ainda que de forma tímida. Poder oferecer minha experiência corporativa e, ao mesmo tempo, me abrir novamente a um aprendizado totalmente diferente do que havia vivenciado até então.

Desde que assumiu a direção da ONG, quais foram os maiores desafios?
O maior deles, que acredito ser natural em qualquer transição, o de conquistar a equipe, foi ainda maior no meu caso. O que uma executiva do segundo setor tem a agregar para uma ONG? E aqui acho que fica uma das primeiras lições: a de que não somos tão diferentes. Existem muitas pessoas no setor corporativo que têm interesse genuíno nas pessoas e não somente nas entregas que fazem, assim como a gestão de uma ONG tem que ser extremamente profissional, com um controle financeiro e orçamentário que propiciem o direcionamento da maior parte dos recursos para a causa que, no nosso caso, são as crianças, especialmente as meninas.

Passou por situações que a emocionaram, que não imaginava que meninas no Brasil enfrentassem?
Nas primeiras semanas visitei nossas equipes, projetos, comunidades e crianças impactadas. Vi muita pobreza, muitas meninas cuja infância foi roubada por um casamento ou uma gravidez precoce. Casos de crianças que foram abusadas por pessoas de seu círculo mais próximo, jovens sendo exploradas sexualmente. Mas também vi e conversei com jovens que passaram pelos nossos projetos e saíram fortalecidas, conhecendo seus direitos e tendo suas escolhas ampliadas. Crianças participando de nossas oficinas e discutindo os mais complexos assuntos, de forma lúdica. Conheci várias ONGs, institutos, associações, coletivos, gente de verdade que faz parte de uma grande rede de proteção, que compartilha uma causa, que trabalha diariamente para mudar o cenário da desigualdade, da violência, da miséria e da invisibilidade na qual vivem milhões de brasileiros.

Acredita que as meninas têm percepção de que recebem uma série de tratamentos diferentes desde cedo, como a divisão de tarefas domésticas e orientação a não terem determinados comportamentos, com uma preocupação do que vão pensar delas?
Estou segura de que as meninas, ainda enquanto meninas, percebem essas diferenças. Temos dois estudos que evidenciam isso. Nossa pesquisa “Por Ser Menina no Brasil – crescendo entre direitos e violências”, ouviu quase 2 mil meninas de 6 a 14 anos, nas cinco regiões do país. Contaram que enquanto 81,4% delas arrumavam a própria cama, somente 11,6% dos meninos arrumavam; enquanto 76,8% delas lavavam louça, somente 12,5% dos meninos lavavam. Essa discrepância segue em relação a mais uma série de atividades domésticas. Desenvolvemos também um estudo chamado “Real Choices, Real Lives”, acompanhando o desenvolvimento de um grupo de meninas até que completem 18 anos. E elas sempre percebem que a vida das meninas e a vida dos meninos é diferente. Desde os 10 anos começam a perceber algo mais: como a transformação do corpo no início da puberdade traz mais um problema, que é a necessidade que elas fiquem em casa, que não saiam mais, porque agora são “mocinhas”.

Como elas se sentem? Quais são os reflexos na autoestima?
Muitas delas naturalizam essas diferenças com o discurso de “é assim mesmo”, “sempre foi assim”, “o normal é assim”. Outras delas percebem que está errado, mas não têm a capacidade necessária para reagir. Então, se submetem às regras, ainda que as considerem erradas. Muitas também resistem e reclamam, cobram de suas famílias um tratamento diferente, começam a querer estudar e aprender mais sobre seus direitos e, dessa maneira, tentam mudar a própria realidade e a de outras meninas.

Ficamos impressionadas com o quarto lugar do Brasil no ranking de casamentos infantis. Há uma região/estado/cidade em que a situação seja pior?
Em números absolutos, o Brasil é o quarto país do mundo em número de casamentos infantis, com 2.928.000 casamentos, ficando atrás de Índia, Bangladesh e Nigéria. O casamento infantil é um problema global. Em todas as regiões do mundo, América Latina, Europa, Ásia, África são encontradas meninas casadas. O casamento infantil atravessa países, culturas, religiões e etnias. No Brasil, segundo os dados oficiais, o casamento infantil acontece em todas as regiões do país, com maior incidência nas regiões Sudeste e Nordeste.

Quais são os reflexos na vida de uma mulher que se casou ainda menina?
O casamento infantil é, antes de tudo, uma situação de violência, uma violação de direitos. Entendemos toda menina casada como uma pessoa cujos direitos estão sendo violados. Por exemplo, ao casar, ela assume uma jornada de trabalho doméstico e responsabilidades para as quais ainda não está preparada. Isso tem um efeito sob sua saúde mental. Em muitos casos é afastada de sua rede de amizades e de sua família. Portanto, tem violado o direito à convivência familiar e comunitária. Sendo uma menina, a possibilidade de ser capaz de negociar métodos contraceptivos e, dessa forma, ter decisão sobre quando e quantas gravidezes deseja, com qual espaçamento entre elas, é quase inexistente. Além de estar exposta ao risco de contrair DST´s. As meninas também estão mais vulneráveis a sofrer violência por parte de parceiro íntimo. E engravidar nessa faixa etária é considerada uma gravidez de risco para a mãe e para o bebê.

E, de acordo com os levantamentos da PLAN, por que elas se casam tão jovens?
São muitos os motivos para o casamento infantil. Vivemos em uma sociedade na qual os papéis tradicionais de gênero e a socialização de gênero fazem com que o casamento seja um destino para meninas e mulheres. No entanto, temos plena convicção de que é um fenômeno multicausal: pobreza, falta de acesso a direitos, violência doméstica e intrafamiliar, controle do corpo, desejo de vivenciar a sexualidade… Todos são elementos que também estão presentes na conformação desse casamento.

Qual a média de idade das meninas brasileiras casadas?
No Brasil, a média de idade é de 15 anos, com uma diferença média mínima de 9 anos em relação ao homem com quem se casam.

Como mudar esse quadro?
Precisamos atuar sobre essa socialização de gênero, negando esses papéis tradicionais que desenham para meninas e mulheres uma existência pautada em um papel reprodutivo e de cuidados. As meninas acabam enxergadas como mulheres em miniaturas. Precisamos de uma conscientização que permita às meninas desenvolverem plenamente seu potencial sem estereótipos. E para isso precisamos de garantias do Estado, o que implica em políticas públicas integradas, de saúde, educação e mais adiante, inserção no mundo do trabalho e da renda. O casamento só é uma opção para as meninas num contexto em que tudo mais falta, de incerteza com relação ao futuro. Casar é a única solução.

Um dos projetos da PLAN é o Meninas Líderes e há também a mobilização Meninas Ocupam. Como e por que essas iniciativas são capazes de influenciar o futuro das nossas jovens?
Em nossa atuação temos convicção de que as meninas, apenas por serem meninas, enfrentam barreiras para acessar seus direitos. Assim, geramos evidências dessas barreiras e das violências às quais estão submetidas, ao mesmo tempo que apontamos para todo o potencial e a capacidade que as meninas hoje têm. Como a humanidade perde por não investir no desenvolvimento delas. Nas duas iniciativas, construímos junto com as meninas processos de formação e projetos que as ajudem a se conectar com seu poder interior, desenvolverem plenamente potenciais, além de engajarmos pessoas adultas para fazerem parte dessa luta. A busca é para que tenham suas vozes escutadas.

Fale mais sobre o Meninas Ocupam.
É um dia em que meninas ocupam simbolicamente lugares de liderança nos mais diversos setores da sociedade. Chama atenção primeiro para a ausência de mulheres nos espaços de decisão e para a necessidade de começar o quanto antes a preparação e o desenvolvimento das meninas para ocuparem esses espaços. Também chama a atenção da sociedade para as demandas das meninas e para a construção de compromissos que apoiem desde já o fortalecimento de suas causas. Levantamos, assim, um movimento que coloca as meninas no centro das discussões e por um Brasil mais justo e igualitário para todas elas.

Quais são as metas da PLAN para este segundo semestre e também para 2019?
Acabamos de construir nossa estratégia para os próximos cinco anos, que tem como desafio transformar a vida de 10 milhões de meninas. Sabemos que só atingiremos este número estabelecendo parcerias com outras organizações e se tivermos meninas, jovens mulheres e comunidades preparadas para atuar conosco na facilitação dos nossos programas. Precisamos fortalecer essa mudança de costumes e leis que impedem as meninas de exercerem plenamente os seus direitos.

Você é mãe de duas jovens. O que ensinou às suas filhas para que não se intimidassem num mundo tão masculino?
Acho impressionante como essa nova geração já nasceu mais inclusiva e preparada para enfrentar as adversidades de um mundo que ainda não está pronto para recebê-las. Elas têm muito a nos ensinar. Desde cedo, conquistam um espaço que nós não tivemos, começando nas escolas. O único ensinamento é o de que a felicidade tem que ser buscada e alcançada, mas não a qualquer custo. E que sempre é possível termos muitos mais aliados do que pessoas contra. O importante é identificá-los, conquistá-los e tê-los ao nosso lado durante nossa trajetória de vida.

Três livros que Cynthia recomenda:

Para educar crianças feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie
A arte da imperfeição, de Brené Brown
A organização dirigida por valores, de Richard Barrett