*Débora Rubin

Como muita gente, sempre quis fazer trabalho voluntário, mas não sabia exatamente o que fazer nem porquê fazê-lo. Ler para crianças com câncer, visitar idosos em asilos, levar sopa para moradores de rua, ensinar redação para jovens da periferia. Poderia fazer tudo isso, mas sabia que ainda não era a minha. Um dia, fuçando o site Atados, que une voluntários e ONGs, achei uma sigla com quatro letras que me fez brilhar os olhos: APAM. Fui buscar mais informações e descobri que a Associação Paulista de Amparo à Mulher era o que eu queria, embora ainda não soubesse: um lugar de acolhida, escuta ativa, empoderamento, programas de geração de renda e de trocas entre mulheres.

Mandei um e-mail e esperei a resposta, que veio rápido. Poucos dias depois, lá estava eu sendo sabatinada por uma doce e feroz criatura conhecida como Irmã Helena. Ao me deparar com uma freira, tive minhas dúvidas sobre aquele lugar ser mesmo para mim, mas cinco minutos de conversa com a irmã são suficientes para você se apaixonar pela causa – e pela casa, um sobrado antigo na Barra Funda, pintado de lilás, que vira meio que a casa da gente quando se pisa pela primeira vez lá.

Isso foi em 2015. Mais de três anos depois, virei uma garota-propaganda da APAM e, além de idealizar e realizar a Roda de Mulheres, espaço de conversa sobre coisas do feminino e do feminismo, sou uma faz tudo que cuida do caixa em feiras, canta pedrinhas no bingo, caça novos voluntários e arrecada doações. Para 2019, temos grandes planos de comunicação e queremos mostrar a APAM ao mundo.

Mulheres velhas

Certa vez, tentando convencer um empresário a fazer uma doação para a gente, uma vez que a APAM vive de doações espontâneas e do dinheiro arrecadado em feiras e eventos, ouvi deste rico homem branco de quase 70 anos: por que vocês perdem tempo ajudando mulheres velhas em vez de investir em jovens ou crianças? Essa pergunta ressoa na minha cabeça até hoje e foi fundamental para entender meu engajamento na instituição. De fato, o nosso maior público é de mulheres entre 40 e 60 anos, embora seja uma casa aberta a todas as idades. São mulheres com perfis diferentes, mas, em linhas gerais, com muitas coisas em comum.

São mulheres de classe baixa que trabalharam, ou ainda trabalham, como domésticas, faxineiras, babás, atendentes, ambulantes, metalúrgicas. São mulheres que cuidaram ou cuidam, na maior parte das vezes sozinhas, dos filhos e dos netos. São mulheres que se deslocam de lugares distantes, das mais variadas periferias, para aprender um novo ofício, que pode ser um curso de cuidador de idoso ou de costura (os dois mais procurados da casa). São mulheres de todas as cores, religiões e provenientes dos lugares mais variados do Brasil, embora eu perceba uma prevalência de negras e pardas, e nordestinas. São mulheres que migraram, que superaram adversidades, algumas vítimas de violência doméstica, outras “apenas” de um sistema que privilegia homens.

As “mulheres velhas” são as mulheres que carregam esse país nas costas, fazendo os trabalhos que ninguém quer fazer, cuidando de filhos e dos netos com o pouco dinheiro que batalham. São essas guerreiras que, de forma invisível, criam os jovens e as crianças que, segundo o empresário, deveriam ter atenção especial. E ainda são ofendidas por um general, novo vice-presidente da República, que diz que famílias sem pais geram jovens desajustados. Onde estão esses pais?

Quando uma mulher dessas é acolhida e ajudada, toda uma rede em torno dela também é acolhida e ajudada.
Por toda a minha admiração a elas, e também por causa de uma jornada pessoal de aceitação do meu feminino e de como eu quero ser mulher nesse mundo que cospe em mulheres, eu sei que as deusas me enviaram ao lugar certo em julho de 2015. É o meu círculo sagrado de mulheres – com uma diversidade que vai além dos círculos que têm apenas mulheres brancas, de classe média, intelectuais e com parceiros solidários. É o meu “Call the Midwife” (série sobre parteiras dos anos 50 na periferia de Londres). É onde eu acolho e também sou acolhida. É mais que um trabalho voluntário, é um movimento solidário que me fez, inclusive, gostar mais da mulher que eu sou.

*Débora Rubin é escritora e jornalista

Para saber mais
www.deborarubin.com.br

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