Suzane G. Frutuoso

Situações adversas podem levar a dois caminhos na vida: o de rendição às dores que causam ou serem o combustível que faltava para enxergarmos a realidade por novos prismas que provocam mudanças positivas. A segunda verdade foi a escolha da engenheira Tatiana Pimenta, 36 anos, depois de enfrentar momentos traumáticos em sequência.

Uma demissão ocorrida no mesmo dia em que soube que o pai tinha um câncer. Dezesseis horas em cárcere privado por um ex-noivo que não aceitava o fim do relacionamento. Para compreender tudo, buscou a terapia. E ali, no entendimento de suas emoções, descobriu quanto o autoconhecimento era importante para o bem-estar das pessoas – e, posteriormente, um bom negócio.

Nasceu a Vittude, plataforma de agendamento e consultas com psicólogos para atendimento on-line e presencial, que já conta com mais de 1 mil profissionais (80% mulheres) e está presente em 90 cidades. Fundada em maio de 2016, a startup recebeu a primeira rodada de investimentos em dezembro, além de crescer entre 20% e 30% ao mês. No começo, 15% do valor das sessões dos psicólogos ficava para a Vittude. Desde fevereiro, além dessa taxa há uma mensalidade de R$ 39,90 (ou R$ 29,90 para quem paga um semestre todo). “Para quem se cadastrou até dezembro de 2017 não há a mensalidade. Ainda assim, para quem chega, é um bom negócio porque disponibilizamos serviços como prontuário eletrônico, calendário, além do uso da própria plataforma com ferramenta de voz e vídeo para a consulta on-line”, diz Tatiana.

O desejo da CEO, e seu sócio, o engenheiro de produção Everton Höpner Pereira, COO da empresa, é fazer da Vittude uma referência em acesso à saúde mental e emocional no país. “Um número grande de pessoas ainda não entende para que serve a psicologia. Permanecem estereótipos como, por exemplo, ser para fracos”, diz Tatiana.

E só consegue dedicar tempo para olhar para dentro, ressignificar a própria história e comportamentos, quem é forte. Como Tatiana. Superação e determinação são traços marcantes de sua trajetória.

Nascida em Corumbá, Mato Grosso do Sul, formada em engenharia civil pela Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, aos 24 anos já ocupava seu primeiro cargo de liderança, comandando uma equipe de cem pessoas – todos homens – na área de concretos de uma construtora, na Bahia. Aos 30 anos estava no auge da carreira em uma multinacional. “As oportunidades chegaram, não fui atrás. Mas sempre estive pronta, sempre gostei de estudar. Nunca parei de estudar”, diz ela, que tem três MBAs: executivo, finanças e administração de empresas.

“Passei em primeiro lugar no vestibular de engenharia e o rapaz que passou em segundo não se conformava”, lembra Tatiana, durante nossa conversa numa manhã de março no Urbee Coworking, na Vila Mariana, onde trabalha hoje a equipe da Vittude, com sete pessoas, incluindo a CEO, o COO e o mascote Freud, um Shihtzu filhote de seis meses. “Pela minha área de atuação e formação sempre estive inserida em ambientes mais agressivos, competitivos. Fui provocada muitas vezes. Não levava para o lado pessoal, respondia com trabalho bem feito.”

A Vittude surgiu a partir do TCC de pós-graduação na FGV de Everton. “Nos conhecemos num encontro de amigos em comum. Ele contou que desejava criar um ‘Trip Advisor’ da medicina, classificando o atendimento dos médicos. Quando meu pai ficou doente percebi como esse tipo de referência é essencial”. Já fora do universo corporativo, dedicada à família enquanto o pai se recuperava, Tatiana viu na ideia uma inovação, que acabou evoluindo para a orientação psicológica, que poderia ser on-line (em medicina, não). Chamou Everton para um café e os dois mergulharam no empreendedorismo.

A empreendedora garante que a plataforma é extremamente segura. Os dados são criptografados, mantendo a privacidade do começo ao fim da consulta, dos dados armazenados, do agendamento e do pagamento das consultas. Não é o que ocorre quando profissionais realizam atendimentos via softwares de comunicação e conexão de voz e vídeo. “Não há privacidade dos dados que circulam nessas ferramentas.”

Horas de medo
O entendimento de que aumentar o máximo possível o acesso das pessoas à saúde mental e ao bem-estar seria uma missão especial veio também de horas de medo. Tatiana precisou da terapia para lidar com o trauma de ser perseguida pelo ex-noivo, que chegou a prendê-la em um quarto de hotel no Rio de Janeiro, onde ela estava a trabalho. Ele saiu de São Paulo e foi até lá.

“Consegui avisar minha prima por WhatsApp, a polícia chegou. Eu estava completamente abalada e cometi o erro que muitas mulheres cometem: não fiz o exame de corpo de delito e o registro do boletim de ocorrência”, lembra. “Queria que aquele pesadelo acabasse logo, mas continuaram ameaças, ele ficava parado em frente ao meu prédio. E a delegada da Delegacia da Mulher dizia que não podia fazer nada porque a rua é pública. Até que recebi uma ameaça por mensagem no celular e, só assim, a justiça considerou que era grave.”

Ela sabe que seu lugar de líder em uma empresa inovadora é uma referência para muitas outras mulheres. “Muita gente fala de diversidade no mundo corporativo, mas continuam demitindo profissionais assim que elas se tornam mães, por exemplo. A diretoria das empresas em que trabalhei era toda de homens brancos. Isso já me incomodava”, diz Tatiana. “E hoje, mesmo eu sendo a CEO, as pessoas respondem mais e-mails do Everton do que os meus. Há quem pergunte por ele quando sou eu quem chego em uma reunião.”

Para ela, o histórico corporativo num meio tão masculino a deixou mais preparada para empreender. “Aliás, no empreendedorismo vejo as mulheres mais preparadas, com garra. E também é nossa responsabilidade equilibrar gêneros nas equipes. Essa seria minha principal dica. Quanto mais representatividade, menos preconceitos.”

Livros que Tatiana recomenda:
Pense simples, de Gustavo Caetano
The Airbnb Story, de Leigh Gallagher
Steve Jobs – A Biografia, de Walter Isaacson

Para saber mais:
www.vittude.com

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