Suzane G. Frutuoso

“E não é que você sabe mesmo?” A pergunta, que era também uma conclusão admirada, partiu de um senhor durante uma feira de tecnologia. Quem a ouviu foi Raquel Molina, que estava no estande da Futuriste Tecnologias Inovadoras, empresa paulista de venda e montagem de drone e líder nacional em cursos para manuseio desse equipamento que está em alta e conquistando os céus. Drones são veículos aéreos não tripulados, controlados remotamente e que realizam inúmeras tarefas.

“Ele queria mais informações sobre um drone gigante, um dos mais avançados do mercado. Pediu para que eu chamasse um dos rapazes presentes para maiores explicações. Eu disse que sabia. Ele pensou que eu era a recepcionista do estande e insistiu para chamar alguém. Eu insisti de volta dizendo que me questionasse quanto quisesse. No fim, contei que eu era sócia-fundadora da empresa”, lembra Raquel, com bom humor. “São situações pontuais, mas que ainda acontecem. Levo numa boa e resolvo mostrando total conhecimento do meu negócio.”

Criada oficialmente em julho de 2015, a Futuriste hoje vende drones com preços que variam em sua maioria entre R$ 1,5 mil e R$ 8 mil. Mas a empresa se destaca pelos treinamentos, um nicho de mercado que Raquel e o sócio, Leonardo, logo perceberam que era desassistido no país. “Aí a gente se destacou. Criamos uma metodologia, não existia nada. Porque não adianta ter um super equipamento e não saber explorar, inclusive com responsabilidade.”

Ela lembrou do caso recente de um drone que invadiu o espaço aéreo do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. “Há um dispositivo no aparelho que o impede de ser ligado quando está em uma fly zone. Alguém burlou esse dispositivo de segurança. Infelizmente, é como carro nas mãos de quem dirige alcoolizado. Por isso, a importância dos nossos treinamentos. Ensinamos a usar, mas batemos na tecla de que invasão de espaço aéreo é crime, traz riscos.”

Os cursos da Futuriste elaborados por Raquel, uma das primeiras mulheres instrutoras de drones no Brasil, e Leonardo, que é também seu namorado, focam em diversas finalidades, tanto para uso profissional quanto recreativo. Entre eles, montagem, configuração, pilotagem, assistência técnica, foto e filmagem. Variam de 8 horas a 30 horas, dependendo da formação desejada.

“É uma ferramenta versátil usada para casamentos, festas, comerciais de TV, produções de cinema, inspeção de obras, simulação de vista por andar na construção civil, controle de queimadas e desmatamentos, monitoramento de fronteiras… Muita coisa. Há casos de afogamento em que o drone foi dez vezes mais rápido que o salva-vidas para chegar no afogado com a boia”, destaca Raquel, com o entusiasmo dos apaixonados pelo próprio negócio.

Alma empreendedora
Nascida em São Bernardo do Campos, região metropolitana de São Paulo, aos 32 anos, divorciada, mãe da pequena Bianca, de 8 anos, Raquel deixou a vida de analista de sistemas em um grande banco para empreender. Mais do que isso: para definitivamente dar certo como empreendedora, sem considerar a possibilidade de falhar. “Sempre fui consciente de que tenho uma filha para criar. Então, mesmo com os riscos de abrir uma empresa eu sabia que, pela Bianca, eu daria um jeito. Sempre dei. É para ela que hoje trabalho tanto, acreditando no que faço.”

O desejo de deixar um legado para sua Bianca, em quem já desperta o gosto pela tecnologia, foi um impulso a mais para Raquel, que desde cedo pensava em empreender. “Meu pai, Alexandre, era metalúrgico, mas sonhava em empreender, falava muito disso. Infelizmente, ele faleceu antes da Futuriste existir. Estaria orgulhoso.” Já a mãe, Denise, funcionária pública, era mais conservadora e temeu, no início, a escolha de Raquel.

“Eu entendo a preocupação dela comigo, com minha filha. Para a mulher é mesmo mais difícil estar à frente de uma empresa. Preciso viajar pelo país, faço muitas reuniões, visito clientes em lugares distantes. Consigo porque tenho o apoio da minha mãe e sei que minha filha está feliz, bem cuidada”, diz. Ela reserva tempo para acompanhar os estudos e brincar com Bianca. Inclusive de videogame. Lembra quanto o pai incentivou ela e a irmã, que também trabalha na área de sistemas, a experimentarem jogos eletrônicos.

Raquel acredita que ainda falta, sim, estímulo às meninas e mulheres para que gostem de tecnologia e ciência. “Nenhuma das minhas amigas gosta. Em 3 anos e meio de Futuriste e mais de mil alunos, tivemos dez mulheres. Quem sabe os drones se tornem um meio para derrubar essa barreira?” Apesar de poucas, as alunas se mostraram ótimas em pilotagem, cuidadosas, refinadas nos movimentos e prudentes.

Para a equipe, que hoje conta com sete funcionários e que vai expandir em 2018, uma de suas metas é contratar mais mulheres. “Tenho acompanhado iniciativas de incentivo a mais mulheres na tecnologia e gostaria de criar algo também nessa linha”, diz. A empresa recebeu o maior número de indicações no prêmio TOP3 Mercado de Drones, incluindo Raquel como a primeira mulher da história a compor a lista TOP3 Profissionais do Ano. No próximo ano, a Futuriste também deve se tornar uma referência em pesquisa e desenvolvimento.

Desistir, jamais
Quando alguém pergunta a Raquel dicas sobre empreendedorismo, sua primeira lição é o planejamento financeiro. “A reserva de dinheiro é fundamental porque no começo do negócio as coisas mudam muito. Até o produto. Oscila bastante. Vai errar, é natural. Mas o segredo é não insistir no erro e arrumar rápido”, diz. E nada de abrir um negócio no achômetro: tem que pensar em fluxo de caixa e prazo de retorno, por exemplo. Para ela, é essencial também definir e conhecer bem o quanto antes seu público. E nada de medo das crises econômicas – que podem ser oportunidades. “A gente cresceu na crise. Muitas pessoas enxergaram no drone uma nova perspectiva, remuneração, profissão. Mudança de vida mesmo”, ressalta.

E perseverança. “Não tem jeito. É muito trabalho, especialmente no começo. É abdicar de algumas coisas. Minha vida social não é mais a mesma. Diminuí muito saídas, festas… Tenho que estar disposta para minha filha e para o trabalho. Mas quando estamos apaixonados pela nossa ideia, a gente nem sente falta do que abriu mão.”

No caso das mulheres, ela pede que não deixem de empreender por serem mães. “Você dá um jeito, se adapta. Dá pra ser super mãe e empreendedora? Não. Mas pensa no exemplo que você está deixando para os filhos e mesmo no que está deixando materialmente.” Raquel acredita que ninguém é 100% o tempo todo. É inviável. “E as mulheres precisam entender que ter tempo para os seus sonhos, além da família, não é pecado. É gostar de si mesma.”

Para saber mais:
www.futuriste.com.br

Drone sem Barreiras: projeto de inclusão social da Futuriste com apoio da Associação Viver em Igualdade para capacitar pessoas com deficiência física a operar drones. Os participantes irão adquirir uma nova habilidade profissional em um mercado promissor, serão inseridos no mundo da inovação tecnológica, poderão rentabilizar o aprendizado, além de utilizar os drones como um hobby e expandir seus olhares para o mundo.
www.futuriste.com.br/drone_sem_barreiras

Livros que Raquel recomenda:
A Estratégia do Oceano Azul – Como Criar Novos Mercados e Tornar a Concorrência Irrelevante, de Chan Kim e Renée Mauborgne
Empresa Focada no Cliente – Mude a Estratégia do Produto Para o Cliente, de Niraj Dawar
Os Segredos de Uma Mente Milionária – Aprenda a Enriquecer Mudando Seus Conceitos Sobre Dinheiro, de Harv T. Eker

2 Comentários

  1. Josiane Corrêa

    Parabéns Raquel! Muito sucesso para você!Trabalhamos juntas e trocamos muitas idéias antes de você decolar em seus Negócios.Vi seus olhos brilhar ao falar do sonho de Empreender, é muito bom ver notícias disso sendo realizado!Deus abençoe Raquel. Um abraço Josiane Corrêa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *