Suzane G. Frutuoso

No ano de 1971, um trabalho conhecido como “o experimento de Stanford”, realizado pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, recrutou um grupo de homens para participar de uma simulação de presídio. Uma parte desempenhou o papel de presos. A outra, de carcereiros. O estudo deveria durar 15 dias. Foi abortado em cinco. Os homens incorporaram de tal forma os papéis que começaram a reproduzir situações de abuso e violência.

Historicamente, a masculinidade ensinada aos homens em praticamente todas as sociedades está ligada à agressividade. E essa educação patriarcal tóxica precisa ser considerada quando se fala em violência contra a mulher. “O homem que agride deve ser penalizado. Mas esta é apenas uma parte do processo. Não basta responsabilizar. Precisa conscientizar, emancipar o homem da ideia de masculino que ele ouviu a vida toda como sendo a certa”, diz o psicólogo Leandro Feitosa Andrade, coordenador do Grupo Reflexivo de Homens do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, de São Paulo. “Ou as agressões contra mulheres não vão parar.”

Leandro, também professor da PUC-SP e da FMU, é um dos pioneiros no país em atendimento a homens que agrediram mulheres. Seu trabalho começou antes mesmo da Lei Maria da Penha, elaborada há 12 anos, determinar os seguintes artigos:

Art. 35. A União, o Distrito Federal, os Estados e Municípios poderão criar e promover, no limite das respectivas competências:
[…] V – centros de educação e de reabilitação para os agressores.

Art. 45. Nos casos de violência doméstica contra a mulher, o juiz poderá determinar o comparecimento obrigatório do agressor a programas de recuperação e reeducação.

Apesar de considerar a lei um avanço enorme na questão de violência e gênero, Leandro observa uma insignificante preocupação em criar tais centros de educação para os homens e é crítico a alguns pontos dos artigos. “O primeiro deles é o uso da palavra ‘agressor’, que traz estigma à identidade da pessoa. O segundo é ‘recuperação’ e ‘reabilitação’. Não há o que ser recuperado, algo natural que tenha sido perdido. Há, sim, que se construir para estes homens formas de socialização, de respeito às diferenças e extermínio de hierarquias. Eles não têm isso internalizado na educação que receberam”, diz.

Leandro reforça que não se trata de passar a mão na cabeça de ninguém. Mas de compreender que o masculino, até aqui, foi definido com base em crenças, inclusive religiosas e morais, ainda muito presentes na sociedade: é apanhando que se aprende; se não posso bater, como se educa?; homem é assim; ela sabia que eu era assim; isso agora é violência?; homem não chora; sentimentalismo é frescura, é viadagem; é coisa de homem fraco; a mulher deve obedecer ao homem; o homem é a cabeça da família; homem pode, mulher não.

“São princípios e valores do sistema dominante. Modelos que reforçam a necessidade de dominar, nem que seja pela imposição da força. Na lógica do patriarcado na qual foi criado, ou ele tem poder ou é fracassado; se deixa de mandar, deixa de ser homem”, diz o psicólogo. “As pessoas diminuem a velocidade no trânsito porque vão levar multa, não por consciência. O mesmo acontece com o homem que é apenas punido pela agressão. Ele não muda, só sabe que pode ir preso.”

Falta muito
Em 2019, o Grupo Reflexivo de Homens do Coletivo (fundado em 1981) completa dez anos e mais de 800 atendimentos. Parece pouco. Criar uma nova masculinidade, porém, exige tempo. Com no máximo 15 homens, os grupos coordenados por Leandro e sua equipe duram entre quatro e seis meses. “É um modelo em que eles de fato refletem para sair machistas o mínimo possível.” Com a determinação da Lei Maria da Penha, os grupos de atendimento para homens vêm crescendo e já estão presentes em cidades como Rio de Janeiro e Belo Horizonte. “Mas se as redes de serviços para mulheres em situação de violência ainda não atingem nem 1% dos municípios brasileiros, imagine atendimento aos homens.”

Aos 58 anos, casado, pai de dois filhos, Leandro vem da periferia da cidade de São Paulo. Sempre enxergou na psicologia e na assistência social caminhos para transformar a realidade das pessoas. A discussão de gênero entrou em sua vida na faculdade, mas trabalhando com mulheres na prostituição. “Eu estava ali para falar de prevenção à Aids e a DSTs. O tema que mais aparecia na fala delas, no entanto, era a violência que sofriam de homens, clientes, policiais e como se consideravam marginais pelo modo como eram tratadas. Entendi que precisavam também entender de direitos e cidadania.”

Até ali, década de 1990, não existiam no Brasil trabalhos de intervenção com a masculinidade. Só teorias. Foi quando Leandro e o filósofo Sérgio Barbosa criaram o primeiro grupo de atendimento a homens na região do ABC, em São Paulo. Desde então, o psicólogo defende que os encontros sejam sempre facilitados por outros homens. “Nos inspiramos justamente nos grupos de mulheres, negros, homossexuais. Entre iguais, eles se sentem livres para falar, acolhidos, se reconhecem nas histórias do outro.”

Uma das principais referências em combate à masculinidade agressiva é o Canadá, onde surgiram os primeiros grupos para homens após uma tragédia e a criação da campanha Laço Branco – Homens Pelo Fim da Violência Contra a Mulher. Em 6 de dezembro de 1989, um rapaz de 25 anos invadiu uma aula da Escola Politécnica de Montreal, ordenou que todos os homens se retirassem da sala e atirou contra as 14 alunas. Ele se suicidou e deixou uma carta na qual dizia não suportar ver mulheres cursando engenharia.

Iniciativa própria
A transformação da realidade feminina está sendo levada adiante por mulheres empoderadas, que bancam suas bandeiras e direitos. Historicamente, as mulheres sabem o que querem, pelo que estão lutando há muito tempo. A transformação pela qual os homens também precisam passar é o oposto. Para eles, a mudança exige uma introspecção, perda e regressão de como foram formados. Exige até um deprimir para serem capazes de ampliar o próprio repertório emocional e exercitar esse novo papel masculino.

“A boa notícia é que nos últimos três anos muitos homens começaram a nos procurar por iniciativa própria, individualmente, por se verem desconfortáveis em suas atitudes e comportamentos. Estão inseguros sobre quem são”, diz Leandro. Esse homem pronto para ressignificar a identidade, afirma o psicólogo, é classe média, intelectualizado, que repensa seu lugar numa busca igualitária na relação. Muitos estão preocupados com outra perspectiva de educação para os filhos. “Ele já está em crise. Os homens dos grupos, não. Esses ainda vêm obrigados.”

Os participantes dos grupos chegam se sentindo injustiçados, indignados, com raiva e ódio. Paz e amor são conversas fiadas para eles. Com os encontros, acabam por revelar históricos de solidão, de não ter com quem falar, pobres de recursos emocionais. “Quando a mulher tem um problema, uma questão, liga para a amiga, a mãe, a irmã. Ela socializa seus sentimentos. O homem, não, nunca pede ajuda. É considerado fragilidade.”

Ao longo dos meses, os homens veem os encontros como a possibilidade de diálogos que nunca viveram. “Um chegou a considerar uma bênção. Muitos afirmam que revelam situações que nunca contaram a ninguém. É comum os que estão há mais tempo dizerem aos novos integrantes ‘eu sei o que você está sentindo’. Essa desconstrução da ideologia machista permite a construção individual e coletiva de socialização que têm como referência a equidade de gênero e novas masculinidades possíveis”, diz Leandro.

Permitir aos homens que reconheçam, ampliem e transformem seus sentidos e significados em relação ao mundo que os cerca leva a uma queda importante na taxa de reincidência da violência contra a mulher: 5% contra 75% fora dos grupos. Para Leandro, agora é essencial o surgimento de políticas públicas que reconheçam esse trabalho como parte de um amadurecimento coletivo da sociedade. “Se o amadurecimento for só individual, as taxas de violência contra a mulher vão demorar ainda mais para cair.”

Para saber mais:
Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde – www.mulheres.org.br
Feminismos e Masculinidades – Novos caminhos para enfrentar a violência contra a mulher, coordenação de Eva Alterman Blay (Editora Cultura Acadêmica)

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