Suzane G. Frutuoso

É ano de eleição e uma das principais promessas de campanha de todos os políticos, não importa o partido ou a ideologia, é melhorar a educação. O problema é que melhorar já não basta. Não o ensino conteudista que se teve no Brasil até agora. Seu tempo passou. A educação do século 21 se transformou e exige inclusão, capacidade analítica e desenvolvimento de soft skills – habilidades como empatia, saber se comunicar, ouvir o outro, trabalhar em equipe e inovar. Essa é a busca da consultora em educação Vera Cabral, também diretora de conteúdo da Bett Educar, maior feira do setor na América Latina, que ocorreu no São Paulo Expo, no começo de maio.

“Continuamos a ter a política e a educação funcionando nas mesmas bases do que eram em meados do século 20. Temos que nos engatar à modernidade. Ou permaneceremos no atraso”, diz ela, que recebeu na Bett 22 mil pessoas, 5 mil a mais do que no ano passado, incluindo visitantes, congressistas e expositores. “O formato, o desenho da área de exposições, os conteúdos com foco em formação, de experimentação e vivências, a apresentação de soluções, produtos e serviços para todos os tipos de instituições de ensino e o clima geral do evento, atestam o seu sucesso. Tudo isso nos chama ainda mais a atenção por conta do momento de profunda crise que vivemos nestes últimos anos.”

Nascida em Itapira, interior de São Paulo, mas criada na cidade de Santos, no litoral paulista, Vera é divorciada, mãe de duas jovens, com graduação e mestrado em economia pela USP e créditos de doutorado pela Unicamp em Economia Social e do Trabalho. Além de diretora de conteúdo da Bett Educar é também diretora executiva da Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares. Vera foi responsável pela criação da Escola de Formação de Professores da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo.

Estamos em período de eleições e uma educação melhor é sempre uma das promessas dos candidatos, não importa o partido. Qual é a situação da educação hoje no Brasil e o que de fato precisamos de agora em diante?
Esta eleição é especialmente crítica para o país. Estamos no final da segunda década do século 21, período de enormes transformações mundiais, em todas as áreas. Continuamos a ter a política e a educação funcionando nas mesmas bases do que eram em meados do século 20. Temos que nos engatar à modernidade. Ou permaneceremos no atraso. Promessas vazias, como sempre aparecem em períodos eleitorais, não nos servem. O importante são propostas congruentes com a transformação da educação e que sejam sustentáveis. A simples melhoria não serve mais. A educação no mundo está se transformando rapidamente e há recursos e possibilidades para que entremos nessa corrente. Quem foi à Bett Educar com certeza saiu com essa sensação. Dá para mudar. É preciso não só vontade, mas projeto, consistência e articulação. O papel do setor público é importantíssimo. Mas a educação não muda se, além dos governos, cada um de nós, indivíduos, empresas, terceiro setor, não participarmos dessa transformação.

O Brasil é um dos países que mais reserva recursos de seu PIB para aplicar em educação, cerca de 16% do orçamento. O que fazemos de errado, então, se não é falta de verba?
Menos que 16% do orçamento dos EUA, da Alemanha e de muitos outros países ricos significa um valor por aluno bem maior do que o nosso. Mas países com bem menos recursos do que o Brasil também têm melhor desempenho educacional do que nós. O fato é que não podemos atribuir nossos problemas à falta de recursos. Há muita ineficiência nos nossos modelos, a começar pela gestão de pessoal. O problema crônico de faltas, licenças médicas, professores que dão poucas aulas em cada escola para conseguirem completar suas grades, entre outras situações, impede o planejamento, a articulação, o olhar para o aluno. A formação inicial de professores é deficiente e a continuada, quando existe, é desarticulada e não consegue mudar as práticas. O problema não é o professor em si, mas a estrutura e o apoio a sua prática, à escola como um todo.

Um dos escândalos do momento é o desvio de verbas de merendas de escolas. Qual o impacto no desenvolvimento e aprendizado de crianças?
A merenda é essencial, especialmente em escolas e em regiões com crianças socialmente menos favorecidas. A influência da alimentação adequada no desenvolvimento das crianças, bem como no seu desempenho escolar, é comprovada por pesquisas. Corrupção tem que ser tratada como tal. Crime, questão de polícia e de justiça. Mas não vale como argumento para fugirmos da responsabilidade do setor educacional quanto aos resultados apresentados. Corrupção está entre as questões a serem tratadas pelo setor, mas não é por conta disso que não avançamos. Os maiores problemas são internos ao próprio setor.

Temos bons exemplos pelo país de educação de qualidade no ensino público?
São muitos os exemplos de professores, escolas e municípios. Na Bett Educar sempre apresentamos diversos casos de sucesso. Em 2016, uma das escolas apontadas com melhor Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação no Estado de São Paulo) fica no bairro de Parelheiros, zona sul, um dos mais afastados e pobres da capital paulista. De forma bastante simplificada, essas escolas têm um traço comum: gestão cuidadosa, o que se confunde com direção ativa e brava, sempre respeitada. Professores articulados em um projeto pedagógico, trabalhando em conjunto e comprometidos com a escola e seus alunos. O problema é que, também de forma simplificada e genérica, os bons resultados estão associados ao empenho e ao desempenho de pessoas. Não é algo institucional. Se alguém sai da escola, especialmente essa diretora ou diretor, a chance do projeto se desarticular é enorme. Descontinuidades de políticas educacionais com as trocas de governo são péssimas.

Há uma cidade/estado que se destaca em educação quando pensamos em boas condições de trabalho para professores?
Em primeiro lugar, não se pode dissociar o termo da questão salarial. E, de certa forma, apesar das contratações de professores serem atribuições de estados e de municípios, o regramento geral da profissão é normatizado em âmbito federal, sejam eles contratados pela CLT ou em regime estatutário. O que mais diferenciaria escolas quanto a “boas condições de trabalho” seriam aquelas inerentes à própria escola. Por um lado, a estrutura física e os recursos disponíveis: internet, livros, materiais didáticos, equipamentos, etc. Por outro, a gestão: liderança, clima organizacional, organização e envolvimento da equipe, e mesmo o suporte recebido de instâncias superiores. Mas há enorme diferença de desempenho entre escolas de uma mesma rede, mesmo estando em localizações próximas, com infraestrutura semelhante. O que nos leva a pensar que os aspectos de gestão sejam de fato os mais relevantes. Não fosse isso, como se explicaria o caso de sucesso da escola de Parelheiros que mencionei? Com certeza o acesso a ela (para professores, funcionários e diretor) é difícil, a região é de grande pobreza, os pais têm baixa escolaridade, os professores provavelmente não são os mais experientes, os efetivos da rede estadual, e assim por diante. É importante questionarmos raciocínios predeterminados para avançarmos. Avalio que “boas condições de trabalho” sejam a condição necessária, mas não suficiente.

Você citaria empresas particulares no Brasil que estão impactando de forma positiva na educação?
Difícil falar de uma. O ecossistema de empresas que trabalham e fazem a diferença para a educação é muito amplo. Desde as editoras de livros didáticos, passando pelas instituições de ensino superior, que formam a grande parte dos professores das redes públicas no Brasil, as grandes empresas de tecnologia, que têm programas e recursos destinados a escolas e professores. É preciso também falar de organizações do terceiro setor que vêm cada vez mais se articulando com redes municipais e estaduais, colaborando em capacitações técnicas e fornecimento de ferramentas para professores e gestores.

E como ampliar essa atuação?
Muita gente trata como pecado lucrar com educação. Isso não ajuda. Vivemos um tempo em que ninguém faz nada sozinho. O Estado não dá conta de todas as demandas da sociedade. A articulação de esforços é essencial para progredirmos. E o Estado precisa cuidar mais da qualidade, seja regulando as instituições de ensino superior para que ofertem cursos de qualidade para os professores ou as editoras para que forneçam materiais didáticos adequados à demanda dos professores, escolas e redes, e assim por diante.

Qual o poder da educação para transformar uma sociedade?
A inserção produtiva e social das pessoas depende cada vez mais da educação. Mas não estamos falando de uma educação apenas conteudista. Estamos falando de um processo de formação de pessoas que tenham, sim, conhecimentos e capacidade de aprender, de se comunicar, de interagir, de entender o mundo a sua volta.

Como mensurar isso?
Precisamos ir além de estudos sobre aumento de renda associados a aumento de escolaridade. Alguns indicadores indiretos podem ser de grande valia. Por exemplo, perfil de emprego/ocupação e perfil de consumo de notícias e informação.

Acredita que a escola é responsável também pela formação de pensamento crítico em relação a questões políticas, de gênero e etnia?
Pela nossa Constituição Federal, a escola, a família e a sociedade são responsáveis pela educação de nossas crianças e jovens. Acho essa uma ótima formulação. Não que a escola seja a única responsável por tratar essas questões, mas com certeza ela não pode se furtar a isso. São questões que fazem parte do dia a dia dos estudantes e não podem ser deixadas de lado. A escola é um ótimo espaço para que se aprenda a conviver com a diversidade. Uma de minhas filhas tem Síndrome de Down. Sempre estudou em escolas inclusivas. O que foi muito bom para ela e para os demais à sua volta. Isso vale também para família e amigos. Todos ganham com a inclusão, de toda natureza.

Ainda há muito preconceito em relação a tais questões, inclusive por parte de professores e gestores?
Avançamos, mas há muito preconceito. É importante podermos discutir. Mesmo não gostando dos argumentos do “outro lado”, prefiro a discussão explícita. Nosso marco legal avançou bastante em termos de inclusão. Inicialmente, eu achava e até falava que inclusão não se faz por lei. Hoje, vejo diferente. Leis não têm o poder de mudar a cultura das pessoas de uma hora para outra. Mas induzem mudanças de comportamento. E punem comportamentos inadequados, o que acaba por reforçar a indução à mudança. Isso acontece nas escolas.

Como abordar esses assuntos delicados? É preciso fazer um trabalho também com os pais para surtir efeito?
Com certeza. Boa parte do preconceito vem dos pais e a influência deles sobre os filhos é enorme. Lembro de uma vez que minha filha, então com uns sete anos, disse que as amigas a questionaram porque ela cumprimentava e conversava com um funcionário da escola que era gay. Ao que ela respondeu: “Por que não faria isso? Ele é uma pessoa. Minha mãe tem diversos amigos muito legais que são gays”.

Hoje se fala muito de inteligência emocional e que é preciso incentivar as chamadas soft skills: liderança, empatia, trabalho em grupo, entre outros. Quais efeitos o incentivo dessas capacidades podem trazer à sociedade?
A educação estritamente conteudista tem lugar cada vez mais reduzido no nosso mundo. Em tempos de inteligência artificial e robotização, com o desaparecimento de empregos e surgimento de novas ocupações, a função da educação é preparar as pessoas para se adaptarem a novas situações. O trabalho e as equipes são cada vez mais interdisciplinares. E as previsões são de que uma pessoa que nasça hoje troque de profissão diversas vezes ao longo de sua vida. Claro que estamos no campo das especulações, mas avalio que o desenvolvimento das chamadas “soft skills” tendem a contribuir para construirmos uma sociedade melhor. Não apenas de pessoas mais capazes intelectualmente, no plano individual. Mas também com maiores possibilidades de enxergar o mundo, o outro e a sociedade. As próprias questões associadas à inclusão têm campo mais fértil para avançar nessas condições.

Não estamos em um país onde meninas são proibidas de estudar. Mas muito da educação que recebem ainda é pautada em divisões de gênero; algumas coisas não são para as meninas porque o que vão pensar delas, e assim por diante. Há um enfraquecimento da capacidade de liderança das meninas e que se reflete no futuro, em suas escolhas e no mercado de trabalho. Isso vem mudando?
Caminhamos sim, mas a passos lentos e que recentemente vêm se acelerando um pouco. Já estamos desarmando essas armadilhas. Mas a quebra da segmentação do mundo entre o de homens e o de mulheres varia significativamente entre diferentes grupos na sociedade. Há muito a ser feito. E acho que este é um ponto em que a sociedade ainda precisa trabalhar fortemente, até para alertar diferentes grupos, entre eles os professores, sobre as consequências de assumirem atitudes impensadas, culturalmente arraigadas. Muito mais do que discutir feminismo, num sentido mais amplo, trata-se de mostrar como se limitam as escolhas e as possibilidades das meninas.

Como as escolas no Brasil, inclusive públicas, podem incentivar mais meninas em áreas como ciências, tecnologia, engenharia e matemática?
No Brasil a falta de incentivo à área de exatas é mais geral e não é exclusividade de meninas. Precisamos trabalhar essa questão de forma mais ampla. Sobre incentivar as meninas nessas áreas, há algumas ações ocorrendo, em geral patrocinadas por organizações não governamentais. Trata-se de uma forma de trazer a questão para dentro da escola e das redes públicas. É algo relevante no mundo todo e que para ser equacionada requer mudança cultural e empoderamento. Acesso à educação de qualidade ajuda muito.

O que a levou a essa área de atuação?
Comecei a trabalhar com educação como economista, entrando pelo viés do financiamento de políticas sociais. Logo, enveredei pela área de avaliação de políticas sociais, com foco em educação, quando tive a oportunidade de conhecer muitos programas governamentais na área. Foi com base nesse trabalho no ciclo de formulação, implantação, monitoramento, avaliação e aperfeiçoamento que me envolvi diretamente com as políticas educacionais. Tive também a oportunidade de trabalhar com educação a distância, o que acabou por me levar à Secretaria Estadual da Educação de São Paulo, para criar a Escola de Formação de Professores Paulo Renato de Souza. Trabalho com educação por paixão. É bom ter a oportunidade de poder, ou pelo menos tentar, contribuir para melhorar a vida das pessoas e o nosso mundo.

Como enxerga a educação brasileira em dez anos?
Sou otimista. O senso de urgência nos atingiu. Acredito que vamos nos livrar de amarras e conseguir avançar muito. Os recursos de tecnologia são grandes aliados. Podem viabilizar o aperfeiçoamento dos professores e o apoio às suas práticas, além de transformar os modelos de aprendizagem.

A educação empodera?
Sem dúvida alguma! É a chave para a transformação da nossa sociedade.

Livros que Vera recomenda:

The Flat World and Education, de Linda Darling-Hammond
Preparing Teachers for a Changing World, de Linda Darling-Hammond
Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

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