Renata Leal

Quando se trabalha com o desenvolvimento de pessoas, nem sempre é fácil mensurar o impacto real de uma ação. As percepções são muito mais qualitativas do que quantitativas. Por isso, impressiona saber que 76% das mulheres que passaram por iniciativas da Escola de Liderança e Desenvolvimento ELAS sentiram aumento na produtividade e na eficiência. Os números vão além: 60% melhoraram o foco, 57% superaram bloqueios, 41% elevaram a capacidade de dizer não. Impactar o desenvolvimento das mulheres é um dos objetivos de Carine Roos, 32 anos, cofundadora do ELAS (junto com Amanda Gomes) e CEO da UPWIT – Unlocking the Power of Women for Innovation and Transformation ou, em português, Destravando o Poder das Mulheres para Inovação e Transformação, uma consultoria de Inteligência e Equidade de Gênero e Inovação.

Desde a formação superior, quando cursou Sociologia na Universidade de Brasília e Comunicação Social no Centro Universitário UniCEUB, Carine se envolveu com as questões de gênero. E as profissões permitiram que ela se tornasse especialista em Equidade de Gênero e Inovação. A comunicação social acabou sendo também uma ponte com a tecnologia. Logo depois de se formar, Carine percorreu alguns estados, como Pará e Goiás, para mapear a inclusão digital em comunidades ribeirinhas e quilombolas. Acabou se aproximando de grupos de tecnologia e software livre. Realizou projetos para o Comitê Gestor de Internet (CGI.br) e o W3C, além de órgãos públicos e outras entidades, como a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Ministério da Saúde, Unesco e Unicef.

Dessa proximidade com a tecnologia surgiram muitas iniciativas, como a participação no Garoa Hacker Clube, em São Paulo. Vieram também os primeiros desafios de estar em um ambiente com tantos homens. “Eu me lembro de uma vez no Garoa em que eu estava dando um workshop de arduino [plataforma de protótipos eletrônicos]. Um cara me interrompeu e começou a dizer o que eu deveria fazer, como se eu não soubesse”, diz. “Enfrentei muito machismo e comecei a me questionar se deveria estar naquele espaço.” Carine afirma que não conseguia sequer organizar eventos específicos para mulheres.

Desses questionamentos surgiu a ideia de criar, junto com outras colegas, o MariaLab, um grupo que hoje reúne mais de 400 mulheres relacionadas à tecnologia, tanto em programação e desenvolvimento quanto em outras áreas. Carine já não está mais no MariaLab, mas contribuiu para aproximar mais mulheres da tecnologia.

A certeza sobre o propósito
Nascida em Manaus, Carine foi mudando de estados com a família por causa do trabalho do pai, médico militar. Viveu no Rio Grande do Sul, depois em Brasília e há sete anos está em São Paulo, casada há cinco com o desenvolvedor Felipe Sanches. Foi na capital paulista que se envolveu mais com as questões relacionadas às mulheres e começou a ter certeza sobre o seu propósito de vida. “O ano de 2016 foi o da minha virada profissional”, afirma.

Carine estava fazendo uma pós-graduação em Gerenciamento em Inovação Social, pela Amani Institute. Junto com outras quatro mulheres, desenvolveu a campanha 33 Dias Sem Machismo, com uma abordagem positiva para que as pessoas revissem hábitos machistas. “Todo dia a gente soltava uma ação nas redes sociais por meio de frases comumente usadas por homens e quais seriam as ações positivas para mudar isso. A repercussão foi muito boa em vários veículos de comunicação e tivemos um alcance totalmente orgânico de mais de 2 milhões de pessoas nas redes sociais.”

Na pós-graduação, Carine também percebeu que precisava encontrar uma forma de remunerar o que já fazia com paixão: ajudar outras mulheres. “Foi aí que criei a UPWIT.” Junto com a consultoria vieram também o lançamento do e-book Mulheres Líderes na Tecnologia: como promover a equidade de gênero e reter talentos nas empresas e uma série de eventos, boa parte deles patrocinados por empresas como McKinsey, Globo.com, ThoughtWorks. “Percebemos que faltavam mais ações para resolver o problema de tornar as mulheres mais assertivas”, diz. Como uma coisa puxa a outra, em 2017 surgiu a escola ELAS.

“No ELAS buscamos resultados concretos. Se uma mulher quer um aumento, por exemplo, não pode chegar com o emocional. Já temos vários casos bem-sucedidos”, afirma. Carine e Amanda, sua sócia, realizam workshops pagos e gratuitos, além de treinamentos de imersão em autoconfiança e em influência. Agora em junho, a soma das mulheres que já fizeram os workshops chegará a 1300. Cerca de 100 realizaram os treinamentos, que têm uma carga horária maior.

“A mulher brasileira precisa aprender a se apropriar dos seus talentos e saber no que ela é boa. Se eu pergunto para uma mulher no que ela é boa, muitas vezes ela tem dificuldade de responder. Nosso mindset não está acostumado a nos valorizar, a nos colocar como protagonistas. Não fomos educadas para liderar”, afirma Carine. Para ela, o resultado direto disso é a dificuldade que as mulheres têm de se posicionarem em situações desafiadoras. “O principal ponto é reconhecer a nossa história, trajetória, conquistas, entender nossos pontos fortes para de fato nos sentirmos empoderadas.”

Livros que Carine recomenda:
A coragem de ser imperfeito – Como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é, de Brené Brown
O poder da presença – Como a linguagem corporal pode ajudar você a aumentar sua autoconfiança, de Amy Cuddy
Dar e Receber – Uma abordagem revolucionária sobre sucesso, generosidade e influência, de Adam Grant

 

Para saber mais:

Programa ELAS: https://programaelas.com.br/

UPWIT: http://upwit.org/

MariaLab: https://marialab.org/

E-book Mulheres Líderes na Tecnologia: http://upwit.org/E-book-Mulheres-Lideres-na-Tecnologia-1

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